Cegueira

Esse post não foi ilustrado, não tenho tido muito força e energia para tal, e, também, talvez a falta de uma imagem relaciona-se com o que quero escrever.

Resolvi escrever pelo sentimento de cegueira que tenho sentido.

Ontem, andando na rua com a minha namorada, que apontava para cachorros e dizia que era fofos e que eu deveria ver, ou então bebês, que sempre nos arrancam sorrisos, pensei em como estou cega para tais coisas.

Eu também costumava ver cachorros na rua e sorrir, dizer como são fofos e até interagir com eles. Não o faço mais.

Costuma ver crianças e bebês, sorrir e comentar como eram fofos e alegres, também não o faço mais.

Costuma derreter-me com meus gatos, achar tudo muito fofo, brincar e viver grudada neles, também já não é a mesma coisa.

Passei a refletir sobre isso, em como tais belezas da vida não têm me afetado, não tem me comovido. Para falar a verdade, já não sei mais o que ainda me comove, e isso me entristece.

Sinto-me vendada por algo não totalmente opaco, algo que ainda tem uma certa transparência, mas que não me permite ver o mundo da forma que eu via antes.

Sinto-me, também, preocupada. Preocupada com a minha sensibilidade, a qual temo estar perdendo, aos poucos, deixando ela escoar pelas minhas mãos, as quais precisam dela, precisam da minha sensibilidade para continuar desenhando e, agora, escrevendo.

Quero acreditar que essa venda vai sair, que eu vou voltar a ver o mundo com as cores brilhantes e suas sensações, e que tudo isso vai voltar a me comover de uma forma que me inspire e que eu seja capaz de sentir tais sensações, de que me toque e que faça com que eu continue me movendo.

Anúncios

Eu achei que fosse conseguir

Eu achava que fosse conseguir, achava que era forte o suficiente.

Vida

Há algum tempo já tomava antidepressivos e ansiolíticos, achava que as coisas caminhavam bem. Que era normal sentir-se um pouco triste e sem forças de vez em quando, que era normal ter vontade de desistir.

Mas sempre achei que conseguiria, que deveria continuar trabalhando muito, estudando e produzindo, mas achava que o que fazia não era suficiente. Eu tinha capacidade de fazer mais, e mais, e mais. Muitos dias sentia-me inútil por não ter trabalhado o suficiente, ainda que tivesse passado 10 horas na frente do computador e da mesa de desenho.

Não estava satisfeita. A vontade de desistir começou a aparecer com mais frequência.

Desistir pois, já que trabalhava tanto e não via resultados, talvez fosse a solução. Trabalhava e lutava contra meus próprios monstros, e nada ia para frente. A vida começou a ficar pesada demais para carregar.

Mas eu achava que passaria, que venceria essa fase, caso continuasse trabalhando ainda mais, tomando meus remédios e carregando o fardo da vida, o fardo da bagunça que estava instalada dentro dos meus pensamentos.

Mas o que achei que fosse conseguir ultrapassar, tomou conta de mim e da minha vida por completo. Chegou a tempestade, o vento forte.

Um dia, dei-me conta de que a vontade de desistir já era imensa, de eu já não tinha mais forças para trabalhar, de que havia uma sofrimento e uma dor gigantescos dentro de mim e que de alguma forma queria sair, e saíram, muito aos pouquinhos, quando comecei a me cortar.

Então foi quando tudo explodiu. Quando me disseram que machucar a si mesmo não é uma coisa natural, que não ter energia para sair de casa não é normal, que cancelar compromissos e desistir de oportunidades não é normal. Foi quando me disseram que tudo isso era muito grave, e eu não tinha essa dimensão.

Eu realmente achava que ia conseguir, que essas coisas eram naturais. Mostraram-me que não são.

O desespero do vazio

Vazio

Há coisas as quais não consigo compreender.

Quando estou em momentos em que parece que as coisas estão mais calmas, em que me encontro um pouco mais tranquila, em que começo a ver uma pequena luz que talvez indique a saída, ele aparece.

Ele, o desespero do vazio. A angústia de não saber o que está acontecendo, quem eu sou, para onde eu vou, o que vou fazer.

O desespero de sentir-se sozinha e sem saída, sem saída dessa angústia, agonia, esse sentimento o qual não sei definir.

Um sentimento que mistura tristeza, desespero, angústia, cansaço, dor, punição, decepção, desesperança, desilusão. Não há como de definir. Nem sei se consigo te fazer imaginar como é.

Quando ele vem, esse desespero, todas as minhas esperanças, esperanças as quais de que estava ficando um pouco melhor, vão embora. Toda a força que eu estava guardando, aos pouquinhos, para tentar realizar algum projeto, escoa pelas minhas mãos, e sinto-me na estaca zero novamente, sem nada, vazia.

Desespero-me por não saber o quê será do amanhã, desespero-me pelo medo da noite que logo mais vai chegar, desespero-me pelas horas que não passam, desespero-me de ter de voltar pra minha casa. 

Não sei por quanto tempo tal desespero vai insistir em voltar.

Só desejo que ele não leve toda a força e a esperança que venho juntando aos pouquinhos.

Hoje acordei “feliz”

Ilustração_Sem_Título 3Geralmente, as manhãs são boas para mim. É a hora do dia em que me sinto mais tranquila, funcional e, às vezes, até esqueço de tudo o que tem acontecido. Mas, nessa manhã, acordei feliz.

Talvez feliz não seja a melhor palavra, mas sim aliviada.

Aliviada pois, depois de duas semanas lutando contra as indicações e insistências em uma internação em uma clínica psiquiátrica, ontem minha psiquiatra aliviou um pouco as coisas.

Sim, estou em uma espécie de “internação domiciliar”, não tenho a vida que levava, não passo nenhuma hora sozinha, meus remédios não ficam sob meu controle e não há tesouras e estiletes em casa.

Mas, estou em casa. Estou com as minhas coisas, com meus livros, com meus materiais de pintura, com acesso à internet, com todas as minhas roupas, com minha tinta de cabelo pink, enfim, estou com a minha vida, pelo menos um pedaço dela

Não encaro isso como uma total alforria, pois continuo monitorada, com terapia três vezes por semana e sedada com uns cinco ou mais remédios, mas tirei um peso enorme das minhas costas.

Carta aos meus pais

Carta aos meus pais

Papai e mamãe, resolvi escrever tudo o que tem se passado, caso um dia eu precise falar, explicar ou vocês precisem ler.

Até então, parece que tudo vai bem, não é mesmo? Já não nos vemos há uns dois meses, e na minha última visita, tudo parecia bem, pelo menos tentei fazer com que parecesse que estava.

Mas nesses dois meses, muitas coisas aconteceram. Talvez, na próxima vez em que nos vermos, vocês mal percebam tudo o que aconteceu, talvez sim.

Talvez só reparem nas duas tatuagens novas e no meu cabelo que agora está cor de rosa, e provavelmente fiquem furiosos e briguem muito comigo.

Mas existem outras coisas para reparar.

Talvez reparem nas cicatrizes nos meu braços e pulsos, reparem nos quilos que eu perdi, reparem que o quão exausta eu estou. Exausta porque tenho lutado muito, todos os dias, enfrentado coisas que eu nunca imaginei ter de enfrentar, e todas elas deixam marcas. Talvez reparem no meu olhar, no piscar dos meus olhos, que meu terapeuta disse que denunciam que algo aqui não vai bem.

Mas a única coisa que eu gostaria que reparassem é o quanto eu tenho lutado, dia após dia, para continuar viva, ainda que, em alguns momentos, eu queira muito desistir. Gostaria que reparassem o quão frágil eu posso ficar, e o quão forte tenho tido de ser.

Espero, também, que tenham a capacidade de entender tudo isso. De que não é minha culpa, de que eu lutei, mas não foi o suficiente.

 

Com carinho, sua filha.

Não se preocupe, mãe, por aqui vai tudo bem.

Mas não vai. Mas precisa parecer que vai.

Enquanto tudo desmorona, enquanto minha vida está totalmente paralisada e sem previsão de reabertura, tudo deve parecer bem.

ilustraccca7acc83o_sem_ticc81tulo-16.jpg
Por aqui, tudo bem, mãe.

Mas cada vez fica mais difícil fazer com que pareça. As contas da farmácia, a fatura das consultas do plano de saúde, onde constam três ou quatro sessões de psicologia e psiquiatria por semana, o tom de voz nas conversas, a falta de conversas, a minha perda de peso, as mentiras sobre a minha rotina, sobre como tenho frequentado minhas aulas e como tenho escrito minha dissertação. O limiar entre ser internado em uma clínica psiquiátrica ou não.

Parece que a cada momento tudo vai ser descoberto, sinto que por pouco não fraquejo e entrego tudo.

Mas não posso.

Meus pais não são do tipo que entendem muito bem doenças como essa. Pensam que orações e estar perto deles curam esses males. Isso é tudo o que eu não preciso.

A minha maior sorte é que família não é aqueles com que temos laços de sangue. São aqueles que escolhemos ou, por muita bondade do destino, nos escolhem. Escolhem nos cuidar sem ter nenhuma obrigação, sem pedir nada em troca, coisa que para mim está difícil compreender agora. Não compreendo o porquê de alguém querer me ajudar a carregar tamanho fardo, que pesa tanto, mas tanto.

E se não fosse por essa família que me escolheu, não sei onde estaria. Se eu não tiver forças para retribuir tudo isso um dia, que o universo o faça por mim.

Dando luz à Clara

Hoje, quem vos fala, é quem está dando luz à Clara. Explico melhor.

Clara é um pseudônimo criado para que eu me sinta à vontade para escrever e ilustrar uma fase da minha vida pela qual estou passando, para ter um espaço de liberdade para expressar sentimentos e pensamentos sem o compromisso de associar meu nome.

Isso não quer dizer que Clara não exista. Ela existe, é um pedaço de mim, que escreve e ilustra.

Clara
Retrato de Clara.

Em minha vida no mundo real, fora do mundo de Clara, sou ilustradora, por isso, caso encontre em algum lugar por aí ilustrações semelhantes com as de Clara, não se preocupe, não é plágio. Ilustrar é diferente de escrever. É difícil criar um pseudônimo para ilustração.

Mas vou contextualizar o nascimento da Clara. Na minha vida, estou em um momento delicado, em uma depressão muito profunda e lutando para não ser internada em um hospital psiquiátrico, buscando outras alternativas além de ter de me afastar totalmente da vida. Já precisei me afastar de muita coisa, precisei me afastar da minha vida acadêmica e profissional, pois já não tenho forças para mais nada além de me manter viva, dia após dia. Afastei-me da maioria das relações sociais, as quais também não tenho forças para manter.

Apenas restou a ilustração e a escrita.

Então achei que publicar o que escrevo e ilustro poderia ser uma boa forma de não concretizar o isolamento total, e, também, talvez servir como um conforto, ou um agrado, aos olhos e mente de quem também talvez esteja em uma situação como a minha.

Não pretendo fazer nenhuma auto-ajuda, longe disso. São apenas fragmentos do que tenho vivido e pensado, ilustrados de uma forma que possa trazer conforto para mim e para quem talvez precise. Também não quero trazer só tristezas, quero buscar as felicidades pequenas que ainda sou capaz de encontrar.

Se hoje Clara tem esse semblante triste e desesperançoso, talvez em algum momento não tenha mais, mas, hoje, essa é Clara.

E por que o nome Clara?

Porque Clara me remete à luz, à claridade, à leveza, à doçura, e é assim que ela é. É esse meu lado que ainda persiste, resiste, apesar de toda a dor e escuridão que sinto nesse momento.

Por quanto tempo a Clara vai durar? Ainda não sabemos. Talvez não consiga desenhar e escrever todos os dias, talvez sim, talvez passe um tempo afastada, talvez depois volte.

Hoje, quem falou foi quem deu a luz à Clara, mas agora este espaço será totalmente dela.

Apenas peço, nos casos de compartilhamento das ilustrações e textos, que sejam dados os devidos créditos. Pois, ainda que sejam produzidos sob um pseudônimo, pertencem a alguém.